Saúde mental na infância e adolescência: saiba como identificar sinais de sofrimento emocional

Saúde mental na infância e adolescência: saiba como identificar sinais de sofrimento emocional

O aumento do sofrimento psíquico entre crianças e jovens acendeu o alerta de especialistas e educadores em todo o país. Dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram uma realidade preocupante: três em cada dez estudantes com idades entre 13 e 17 anos relatam sentir tristeza sempre ou na maioria das vezes.

Ainda mais grave, o levantamento apontou que 18,5% dos alunos entrevistados disseram pensar frequentemente que a vida não vale a pena ser vivida. Como crianças e adolescentes nem sempre conseguem expressar claramente a dor que sentem, as manifestações acabam ocorrendo por meio de mudanças na rotina e no comportamento, o que exige atenção dos pais e responsáveis.

Foto: Ilustrativa / Pexels

Sinais comportamentais na infância e adolescência

A identificação precoce do problema é fundamental para a busca de ajuda. Conforme apuramos, a observação do dia a dia do jovem é a principal ferramenta diagnóstica para os familiares. Alterações de rotina que duram semanas e afetam a convivência diária não devem ser ignoradas.

Entre as principais mudanças de comportamento em jovens e adolescentes, destacam-se:

  • Alterações no padrão de sono (insônia ou sonolência excessiva);
  • Mudanças drásticas na alimentação;
  • Perda de interesse por atividades que antes geravam prazer;
  • Irritabilidade intensa e persistente;
  • Afastamento do círculo de amizades e isolamento social;
  • Queda abrupta no rendimento escolar.

Manifestação do sofrimento em crianças menores

Nas crianças de menor idade, que ainda não possuem vocabulário ou maturação emocional para verbalizar sentimentos, o sofrimento costuma se refletir no corpo e nas dinâmicas lúdicas. Pode ocorrer a perda de autonomias já conquistadas — como voltar a fazer xixi na cama ou exigir ajuda para se alimentar — além de mudanças na forma de brincar.

Especialistas explicam que o ato de brincar, desenhar e inventar histórias é o canal direto de expressão infantil. Por meio das brincadeiras, a criança tenta processar eventos estressantes, como a separação dos pais ou perdas familiares. Pequenos que se mostram excessivamente quietos e isolados também podem estar enfrentando quadros de dor psíquica intensa.

Saúde mental na infância e adolescência: saiba como identificar sinais de sofrimento emocional

Adolescência e os desafios da oscilação de humor

A fase adolescente é naturalmente marcada por transformações físicas, hormonais e sociais. Oscilações de humor e necessidade de recolhimento são esperadas durante essa transição. O alerta deve ser ligado quando o jovem perde a capacidade de retomar suas atividades de interesse e de manter vínculos afetivos.

Diante do baixo rendimento escolar, a orientação profissional é evitar julgamentos imediatos, como classificar a situação como preguiça. É necessário investigar a presença de conflitos no ambiente de ensino, dificuldades de aprendizagem, situações de humilhação (bullying), distúrbios do sono ou crise no ambiente familiar. Diálogos abertos e sem tom acusatório são os primeiros passos para o acolhimento.

Em alguns casos de instabilidade familiar ou tensões do cotidiano, disputas públicas e polarizações também chegam aos ouvidos dos jovens. Situações de debates acalorados sobre figuras públicas, a exemplo do episódio em que Augusto Cury apaga vídeo com críticas, mostram como o ambiente externo pode gerar ruídos na convivência diária.

Luana Dantas – psicóloga clínica Holiste / Crédito: Joilson Pereira

O papel das telas e limites com a tecnologia

O uso intensivo de telas e redes sociais integra a realidade da nova geração, mas o limite entre entretenimento e prejuízo emocional precisa ser gerido com cuidado. O uso passa a ser problemático quando substitui o sono, a convivência presencial e o brincar.

A exposição contínua ao julgamento alheio e a comparação social em plataformas digitais são fatores reconhecidos no aumento de crises de ansiedade. Para estabelecer um ambiente digital saudável, especialistas sugerem um roteiro de avaliação para as famílias:

Ponto de Avaliação O que observar nos filhos
Qualidade do Sono As telas estão sendo usadas até momentos antes de dormir, prejudicando o descanso?
Convivência Social Ainda há espaço reservado para reuniões familiares e conversas sem celular?
Variedade de Interesses O jovem consegue se interessar por esportes, leitura ou lazer fora da internet?
Reação à Frustração Como a criança ou adolescente reage quando precisa interromper o uso do aparelho?

Negociar regras de uso com adolescentes e dar o exemplo no dia a dia é fundamental para manter acordos sustentáveis. Incidentes nas ruas ou no dia a dia, como o relato recente em que o senador Marcos do Val afirma ter sido insultado por um entregador, ilustram como os estresses do mundo adulto e o uso contínuo da tecnologia acabam repercutindo em toda a sociedade.

Busca de ajuda profissional e desmitificação de tabus

Muitos pais adiam a busca por tratamento especializado por receio de estarem admitindo falhas na criação dos filhos. No entanto, a intervenção profissional busca acolher o sofrimento sem culpabilizar a estrutura familiar.

Em casos de sofrimento intenso, prejuízos graves na rotina, dúvidas no diagnóstico ou situações de risco, a avaliação com equipe multiprofissional (envolvendo psicólogos e psiquiatras) torna-se indispensável. A psicoterapia atua na compreensão dos conflitos diários, enquanto a medicação, quando indicada, auxilia no alívio de sintomas agudos.

Atenção ao perigo iminente: Situações que envolvem atos de automutilação, falas sobre morte ou suspeita de intenção suicida exigem atendimento médico e psicológico de urgência imediata.

Práticas como controle de respiração em episódios de ansiedade, promoção de rotina com exercícios e tempo livre sem cobrança de desempenho auxiliam no processo terapêutico, garantindo maior estabilidade emocional aos jovens.

Saúde mental na infância e adolescência: saiba como identificar sinais de sofrimento emocional