Centrão articula reforma eleitoral na Câmara para conter impacto de puxadores de votos

A expansão da bancada do PL, que garantiu a eleição de 121 deputados federais, acendeu o sinal de alerta entre as lideranças das siglas que compõem o chamado Centrão no Congresso Nacional. Temendo a perda de protagonismo e de espaço político nas próximas legislaturas, congressistas de partidos tradicionais iniciaram uma ofensiva para aprovar mudanças nas regras eleitorais antes da posse da nova composição da Câmara dos Deputados e do Senado, prevista para fevereiro.

O foco principal da articulação é alterar a legislação para conter o fenômeno conhecido nos bastidores como “efeito Nikolas”. O termo faz referência direta ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que obteve cerca de 1,47 milhão de votos nas eleições de 2022 — marca expressiva que, pelo sistema proporcional vigente, ajudou a puxar diversos outros correligionários para a Câmara dos Deputados, incluindo parlamentares que registraram votações individuais modestas. Fenômenos semelhantes já ocorreram em pleitos anteriores com nomes como Enéas Carneiro e Tiririca.

Entenda o projeto de transição para o sistema distrital misto

O texto em pauta, que já passou pela aprovação do Senado Federal, propõe a implementação do sistema distrital misto. Na prática, a proposta divide os estados em distritos territoriais. Metade das vagas em disputa seria preenchida pelos candidatos mais votados em cada distrito individualmente, pelo critério de maioria simples, eliminando a transferência de votos para outros quadros da mesma legenda nessas circunscrições.

A outra metade das cadeiras permaneceria sendo distribuída pelo modelo proporcional, mas com uma alteração importante: a votação ocorreria por meio de lista fechada, com ordenação previamente definida pelos partidos durante suas convenções oficiais. Atualmente, o sistema eleitoral brasileiro utiliza a lista aberta, na qual a soma dos votos nominais de todos os candidatos e dos votos na legenda define o total de vagas de cada partido ou federação, preenchidas posteriormente conforme a classificação individual de votação.

Abaixo, detalhamos as principais diferenças entre o modelo eleitoral atual e a proposta em discussão no Congresso:

Característica Sistema Atual (Proporcional de Lista Aberta) Proposta em Articulação (Distrital Misto)
Distribuição das Vagas 100% via quociente partidário e coligações/federações. 50% por voto distrital direto e 50% por lista partidária.
Puxadores de Voto Candidatos hipervotados elegem outros nomes do partido. Fim da transferência de votos nas vagas dos distritos.
Ordenação de Candidatos Definida diretamente pela quantidade de votos do eleitor. Definida pelo partido na convenção (para a metade proporcional).

Bloco partidário busca aprovação ágil na Câmara

A movimentação para acelerar a votação do texto reúne uma coalizão de dez agremiações políticas. O grupo é liderado ativamente pelo PSD, comandado por Gilberto Kassab, e pelo Republicanos, presidido por Marcos Pereira. O movimento também conta com o respaldo do presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), além de legendas como União Brasil, PP, MDB, Podemos, PSDB, Cidadania, Solidariedade e PRD.

A estratégia do bloco é iniciar os debates regimentais de imediato para levar a matéria ao plenário na primeira semana de novembro. Os partidos favoráveis contabilizam uma base sólida de 271 votos favoráveis para a deliberação, número superior ao quórum mínimo exigido de 257 votos para matérias dessa natureza.

Segundo o líder do PSD na Câmara, deputado Antonio Brito (BA), a mudança busca aproximar o parlamentar da sua comunidade. “Vamos começar a ter reuniões a partir da semana que vem para já organizar essa votação. O que se espera é uma proximidade maior entre os deputados com as suas bases eleitorais”, destacou o parlamentar.

O movimento encabeçado por Hugo Motta ocorre em meio a debates políticos mais amplos sobre alianças partidárias e a reconfiguração de forças nos estados, similar às movimentações onde ACM Neto e Flávio Bolsonaro selam aliança no cenário eleitoral regional.

Resistência do PL e do PT divide opiniões no Congresso

Apesar da articulação do Centrão, a proposta enfrenta forte oposição de duas das maiores forças políticas da casa: o PL e o PT. O projeto já havia sido colocado em pauta no ano passado, mas acabou travado pelo desgaste e pela resistência de ambas as bancadas.

O PL argumenta que a alteração substancial nas regras de votação pode gerar extrema confusão na cabeça do eleitor no momento do sufrágio. Por sua vez, congressistas do PT sustentam que a migração para o sistema distrital atende predominantemente aos interesses de elites regionais consolidadas, reduzindo a representatividade de minorias e de novos quadros políticos organizados em movimentos sociais.

Em nossa análise editorial, a pressa em votar a matéria evidencia como a contagem de cadeiras e a manutenção das estruturas partidárias tradicionais continuam a ditar o ritmo do calendário legislativo em Brasília.

Apareceu primeiro em: https://platobr.com.br/centrao-corre-para-conter-efeito-nikolas-enquanto-ainda-tem-maioria-na-camara