Eleições presidenciais terminam sem debate econômico e vencedor terá de cortar gastos

O Brasil decide o seu próximo presidente da República após uma campanha eleitoral marcada pela ausência de debates aprofundados sobre os rumos da economia nacional. Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro apresentaram propostas que implicam na ampliação de gastos públicos, mas omitiram dos eleitores estratégias claras para conter o avanço da dívida pública — fator apontado por analistas do mercado como o principal obstáculo para a sustentabilidade fiscal e a redução das taxas de juros no país.

Especialistas e economistas convergem ao sinalizar que a pessoa eleita enfrentará uma dura realidade fiscal e precisará implementar cortes de despesas e reformas estruturais que foram ignoradas ao longo da corrida eleitoral. A execução de eventuais medidas de austeridade exigirá articulação política expressiva junto ao Congresso Nacional, onde propostas de contenção de custos costumam encontrar forte resistência.

Ausência de propostas e padrão histórico nas campanhas

A falta de detalhamento em relação aos planos econômicos durante o período eleitoral reflete um padrão recorrente no cenário político brasileiro. Segundo a avaliação do economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, a apresentação de programas econômicos estruturados e compromissos fiscais explícitos tem sido exceção desde a redemocratização. Casos pontuais ocorreram em 1994, durante o lançamento do Plano Real, e em 2002, com a publicação da Carta ao Povo Brasileiro.

Em sua análise editorial, Camargo projeta ressalvas sobre a condução das contas públicas no caso de continuidade da atual gestão. O analista observa que a retórica governamental tende a atribuir aos juros altos a causa principal do endividamento, invertendo a lógica econômica tradicional de que o desequilíbrio fiscal é o gerador da inflação e da necessidade de taxas de juros elevadas.

Historicamente, a combinação de superávit comercial com rigor fiscal permitiu ao país registrar crescimento econômico acompanhado de inflação controlada. Por outro lado, a ausência de um ajuste fiscal consistente força o governo a escolher entre o aumento continuado da dívida e a perda do controle inflacionário, gerando instabilidade no mercado financeiro.

A volatilidade econômica gerada por incertezas fiscais teve precedentes recentes no quarto trimestre de 2024, período em que a moeda norte-americana ultrapassou a marca de R$ 6. Para conter a depreciação cambial e conter a inflação, o Banco Central precisou intervir ofertando cerca de US$ 30 bilhões de suas reservas internacionais, além de promover altas na taxa básica de juros (Selic), que atingiu o patamar de 15% ao ano.

Incertezas do mercado e o desafio das despesas obrigatórias

No caso da candidatura de Flávio Bolsonaro, a avaliação de analistas financeiros aponta para um cenário de indefinição, uma vez que não foi detalhado um programa formal para a área econômica. As sinalizações feitas durante a campanha variaram entre acenos de responsabilidade fiscal e propostas de manutenção de gastos, mantendo o mercado em compasso de espera.

O economista e sócio da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto, reforça que a discussão econômica ao longo da disputa restringiu-se a promessas de geração de emprego e crescimento, sem indicar as fontes de financiamento ou formas de aumentar a produtividade do país. Para Campos Neto, o reequilíbrio das contas públicas consolida-se como a urgência primária do próximo mandato.

A trajetória de alta dos gastos e a percepção de risco fiscal afetam não apenas as contas do governo, mas estendem-se a empresas e consumidores, que enfrentam crédito mais caro e alto nível de endividamento. Diante das promessas eleitorais que indicam a criação de novas despesas, o próximo presidente terá de adotar medidas impopulares para conter o déficit.

Principais gargalos para o ajuste fiscal

O maior entrave para a gestão orçamentária do próximo governo reside no crescimento automático das despesas obrigatórias. As regras atuais travam o orçamento e exigem alterações legislativas complexas. Entre os principais pontos de atenção, destacam-se:

  • Política de reajuste do salário mínimo: A garantia de ganho real eleva de forma cascateada os custos com benefícios previdenciários e assistenciais.
  • Pisos constitucionais: A vinculação obrigatória dos gastos em saúde e educação ao crescimento da arrecadação limita a margem de manobra do executivo.
  • Risco de estelionato eleitoral: Necessidade de aplicar reformas duras e não debatidas previamente com a população para evitar o colapso das contas públicas.

Enquanto as lideranças partidárias mantêm o foco na articulação para a formação de governabilidade no Legislativo — contexto em que o Centrão articula reforma eleitoral para manter sua influência —, o ambiente econômico exige decisões imediatas. A tendência é que o presidente eleito precise aprovar medidas fiscais duras no início da gestão para reverter a desconfiança dos agentes econômicos e viabilizar a redução sustentável dos juros.